A dieta aprovada pelo seu governo pode te matar

por Aaron Tao, o original está aqui

Tradução: Daniel Castro

  • heart attack

É possível imaginar uma tragédia maior que, em nossa empresa de conscientemente moldar nosso futuro de acordo com ideais elevados, nós de fato devamos produzir o exato oposto daquilo que queríamos? — F. A. Hayek

A maioria de nós “sabe” que comer muita gordura saturada (que está presente na carne vermelha, laticínios e ovos) aumenta nossos níveis de colesterol e nosso risco de doenças cardíacas. E por falar nisto, devemos consumir bem menos sal também. Estas lições são reforçadas em nossas aulas sobre saúde e pelo que a mídia nos diz há décadas. Afinal, o consenso é refletido nas “Dietary Guidelines for Americans” (em tradução livre, Orientações Dietéticas aos Americanos) lançada pelo Departamento de Agricultura dos Esados Unidos (USDA) e embasado por uma ciência alegadamente sólida e objetiva, feita pelo Instituto Nacional da Saúde (NIH). Como uma garantia extra, a Administração de Comidas e Medicamentos (FDA) irá usar sua autoridade regulatória para perseguir as gorduras trans, o pior de todos os vilões.

Apesar da aparente frente unida na guerra contra a obesidade, uma dissidência aguda sobre uma política nutricional correta está silenciosamente borbulhando sob a superfície. Pode ser um sinal dos tempos que desafios fundamentais tenham vindo à tona e estão se tornando cada vez mais aceitos. Um crescente número de cientistas está expressando um ceticismo público a respeito da orientação oficial recomendando um baixo consumo de sal. Em Fevereiro deste ano, o mais importante júri nutricional do governo retirou seu alerta de quase quatro décadas sobre a restrição do consumo de colesterol e concluiu com má vontade que “as evidências disponíveis não demonstram uma relação apreciável entre o consumo dietário de colesterol e o colesterol [no sangue].”

O consenso da Saúde se Desenrola

Em um dos editoriais do Wall Street Journal mais compartilhados de 2014, a jornalista investigativa Nina Teicholz lançou o desafio contra a corrente principal das orientações dietéticas sobre a gordura:

“A gordura saturada não causa doenças cardíacas” — ou assim um grande estudo publicado em março no jornal Annals of Internal Medicine concluiu. Como isto pode ser verdade? A pedra fundamental do conselho dietético por gerações tem sido que as gorduras saturadas na manteiga, queijo e carne vermelha devem ser evitadas porque elas entopem nossas artérias. Para muitos americanos conscientes sobre dieta, é simplesmente natureza adquirida optar por frango ao invés de lombo de vaca, ou óleo de canola no lugar de manteiga.

Porém, a conclusão do novo estudo não deve surpreender ninguém familiar com a ciência nutricional moderna. O fato é, nunca houve qualquer evidência sólida de que estas gorduras causem doenças. Nós só acreditamos nisto porque a política nutricional foi tirada dos trilhos por uma mistura de ambição pessoal, ciência ruim, politicagem e vieses.”

Teicholz elabora sobre sua tese em seu livro esclaredor e best-seller The Big Fat Surprise: Why Butter, Meat and Cheese Belong in a Healthy Diet (NT.: Previsto para ser lançado em português no Brasil em 2016). Com mais de 100 páginas de notas de rodapé e uma bibliografia extensa, é claro que Teicholz fez seu trabalho de casa. Em seus nove anos de investigação, ela revisou extensivamente a literatura científica e entrevistou muitas personalidades chave no governo, indústria privada, e grupos de interesse que influenciaram na formação da política nutricional oficial. Enquanto muitas pessoas podem ficar tentadas a culpar “os interesses nefastos das grandes empresas agrícolas (Big Food),” Teicholz descobriu que a “fonte de nossos conselhos nutricionais errados … parece ter sido causada por especialistas de nossas instituições mais confiadas, trabalhando pelo que acreditavam ser o bem comum.”

A Ascencão do Especialista do Governo

Americano com consciência cívica geralmente estão familiarizados com o aviso famoso de Dwight D. Eisenhower em seu discurso de despedida para que eles “tomem precauções contra a aquisição de influências indevidas … pelo complexo militar industrial.” Ainda assim, existe outra passagem que merece uma atenção igual, se não maior. Contra o pano de fundo da Guerra Fria, diversos intelectuais foram cooptados para se tornarem parte do Leviatã, silenciando o seu papel devido de críticos do poder:

“Hoje, o inventor solitário, trabalhando em sua loja, foi ofuscado pelo grupos de cientistas em laboratórios e campos de testes. Do mesmo modo, a universidade livre, historicamente fonte de ideias livres e da descoberta científica, experimentou uma revolução no modo de conduzir pesquisas. Parcialmente por conta dos custos gigantescos envolvidos, um contrato com o governo se torna o virtual substituto da curiosidade intelectual. … O prospecto da dominação dos estudiosos do país pelos empregos federais, alocações de projetos e pelo poder do dinheiro está sempre presente — e deve ser considerado seriamente.

Ainda assim, em respeito às pesquisa e descoberta científicas, devemos também ficar alertas quanto ao perigo oposto, de que as próprias políticas públicas se tornem cativas de uma elite cientifico-tecnológica.”

Não há melhor exemplo de uma “política pública … se tornando cativa de uma elite cientifico-tecnológica” do que o que aconteceu com a pesquisa nutricional e com a política de saúde. Ironicamente, a história de como a gordura saturada foi demonizada começou nos anos Eisenhower. Após ele sofrer um ataque cardíaco (NT.: esta história é contada e explicada no livro Good Calories, Bad Calories, de Gary Taubes), os políticos de Washington ficaram alarmados com a doença que subitamente estava acometendo a elite dominante. Depois de entrar em modo de crise “Faça algo!”, não demorou muito antes que eles entrassem na onda de especialistas que ofereciam respostas fáceis. Um deles era o Dr. Ancel B. Keys, criador da hipótese que a gordura saturada causa doenças cardíacas. Keys a partir de então exerceu talvez a maior influência na “história da nutrição” através de um domínio pessoal e profissional.

Opositores desta hipótese incluíam cientistas distintos como George V. Mann e E.H. “Pete” Ahrens, que deram voz a muitas críticas legítimas. Mas no final, eles não foram páreo para as mudanças sem precedentes forçadas por Keys e seu ajudante Jeremiah Stamler. Através de seus esforços, estes dois homens e seus apoiadores borraram a linha entre estudos objetivos e advocacia política. Não demorou muito para que os pesquisadores nutricionais céticos fossem forçados a se submeter, relegados às margens, ou afogados conforme o zeitgeist mudava a favor da hipótese de Keys e de suas soluções prediletas.

Dogma é um termo que é normalmente associado à religiões fundamentalistas. Mas infelizmente, mesmo cientistas supostamente treinados a pensar critica e independentemente não são imunes ao pensamento grupal, às tentações oferecidas pelo prestígio político, e os limites do que é “aceitável” conforme ditado pelo financiamento. Apesar dos problemas de vários estudos que aparentemente davam uma base científica sólida, a hipótese de que gorduras saturadas causam doenças cardíacas se tornou um dogma quando as burocracias de saúde americanas a institucionalizaram formalmente. Isto aconteceu graças à incansável advocacia e às relações íntimas de Keys com a Associação Americana do Coração (AHA). A influência da AHA sobre a política nutricional não pode ser exagerada. De fato, a “AHA e o NIH foram forças paralelas, e ligadas desde o começo.” Como as duas principais associações responsáveis por criar a agenda e distribuir milhões de dólares em fundos para pesquisa cardiovascular, ficou cada vez mais difícil “reverter o curso e pensar sobre outras ideias” mesmo que a hipótese que a gordura saturada causa doenças cardíacas continuasse a desapontar porque ela “havia se tornado um caso de credibilidade institucional.”

Congresso e “Big Food

Para piorar, o Congresso se envolveu diretamente durante os anos 1970 na questão de que os americanos deveriam comer. Teicholz explicou que a cultura da capital permitia que más ideias tomassem posse e se entrincheirassem (como qualquer um que já trabalhou lá pode atestar):

Com usas burocracias massivas e cadeias de comando obedientes, Washington é o lugar opostos de onde o ceticismo — tão essencial para uma ciência boa — pode sobreviver. Quando o Congresso adotou a hipótese de Keys, a ideia ganhou força como um dogma universal e inatacável, e daí por diante, virtualmente não houve caminho de volta.

Empresas da Big Food e lobistas foram até Washington e criaram uma Fundação Nutricional para enviar milhões de dólares para pesquisa e assim foram “capazes de influenciar a opinião científica conforme ela era formada.” Sem surpresas, “a promoção de comidas baseadas em carboidratos como cereais, pães, crackers, e chips, foi exatamente o tipo de conselho dietário que essas companhias favoreciam.” Estas comidas terminaram por receber belos endossos da elite nutricional do governo. Apesar do que muitos poderiam esperar, os interesses das empresas de carne e laticínios eram fracos em comparação. Carboidratos e gorduras polinsaturadas (óleos vegetais) foram amplamente favorecidos em relação às gorduras saturadas. O consumo de carne vermelha foi cada vez mais demonizado conforme novos estudos ressaltavam suas supostas consequências prejudiciais à saúde. Movimentos ambientais esquerdistas também ganharam força nesta época. Em nome da “sustentabilidade,” estas campanhas e seus apoiadores recomendavam a redução ou a total eliminação da carne da dieta.

Os Dados não Dizem o que o Congresso Pensa que eles Dizem

Através do livro, Teicholz revê a literatura científica criticamente examinando os dados puros, e não abstratos ou resumos (as únicas seções que políticos ou pesquisadores leem), e repetidamente aponta vários erros metodológicos e limitações. Em particular, ela toma cuidado de enfatizar que estudos epidemiológicos podem no máximo mostrar uma associação entre dois elementos, mas “não podem estabelecer relações causais.” Somente estudos clínicos controlados cuidadosamente podem estabelecer causas. Chocantemente, quase todos os estudos que foram citados para provar a hipótese de Keys são epidemiológicos. O famoso Estudo de Sete Países dirigido por Keys foi um estudo epidemiológico que aparentemente mostrava uma forte correlação entre o consumo de gorduras saturadas e doenças cardíacas em populações internacionais. Teicholz apontou muitas variáveis confundidoras como o fato que Keys examinou a região Mediterrânea após a Segunda Guerra Mundial. Durante este período, as pessoas estavam empobrecidas e comiam dietas anormais. Além disto, Teicholz revelou que Keys conduziu parte de suas pesquisas durante a Quaresma (nada de carne para os fiéis!) junto com outros exemplos escandalosos de escolha de dados que se adequavam à sua narrativa. Outros estudos proeminentes sofriam com defeitos similares. O Estudo do Coração de Framingham originalmente anunciou que um colesterol total elevado era um previsor confiável de doenças cardíacas, mas um estudo subsequente trinta anos depois questionou estes resultados. O Serviço Civil de Estudos Israelense mencionou que adorar a Deus abaixa o risco de ataques cardíacos! Mesmo com suas fraquezas, estes estudos são citados repetidamente e a ideia que gordura saturada leva à doenças cardíacas continua presente na sabedoria convencional.

Tendo estudado antropologia, eu fiquei deliciado que Teicholz ressaltou “paradoxos”evidentes ao descobrir diversos exemplos de populações nativas que comiam praticamente somente carne e gordura animal como os Inuit e os Masai e ainda assim não tinham virtualmente nenhum caso registrado de doenças cardíacas, obesidade, ou quaisquer das doenças crônicas da civilização Ocidental (isto é, até que elas adicionassem açúcar e carboidratos refinados às suas dietas). Em sua análise dos ensaios clínicos destinados a estabelecer causas e efeitos. ela notou um problema perturbador que aparecia repetidamente mas que geralmente era enterrado: que seguir dietas com poucas gorduras saturadas não  aumentava a expectativa de vida. Falando sobre ensaios clínicos, é válido mencionar a Initiciativa pela Saúde da Mulher (WHI), que angariou 49.000 mulheres em 1993 e visava validar os benefícios de uma dieta com pouca gordura de uma vez por todas. Aqui vão os resultados desapontadores conforme resumidos por Teicholz:

Depois de uma década comendo mais frutas, vegetais, e grãos integrais enquanto diminuindo o consumo de carnes e gordura, estas mulheres não somente não conseguiram perder peso, mas também não conseguiram uma redução significativa dos riscos de doenças cardíacas ou de qualquer grande grupo de doenças. WHI foi o maior e mais prolongado estudo sobre a dieta com pouca gordura, e os resultados simplesmente indicam que a dieta falhou.

Conforme Teicholz chega ao estado da ciência atual, ela cita o trabalho premiado do jornalista científico Gary Taubes e de alguns poucos pesquisadores heterodoxos includindo Stephen D. Finney e Jeff S. Volek, que também desafiaram o tabu contra a carne vermelha e a gordura. Graças a artigos de grande alcance na Science e no New York Times assim como um livro compreensivo,Good Calories, Bad Calories, Taubes foi mais responsável que qualquer outra pessoas em reabrir o debate de que carboidratos, e não gordura, são os causadores da obesidade e de outras doenças crônicas. Mesmo que hoje em dia mais pessoas saibam dos efeitos de consumir grandes quantidades de carboidratos refinados e açúcares, um dano permanente foi causado devido ao velho viés contra a favor da hipótese de que a gordura saturada causa doenças cardíacas. Políticos profissionais adotaram esta visão, grupos de interesse adicionaram combustível ao fogo, e restaurantes e cafeterias alteraram seus menus. Milhões de americanos mudaram seus padrões dietários e evitaram carne, leite, nata, e manteiga. No final, os resultados não foram belos:

Medindo somente pelas mortes e doenças, e excluindo as milhões de vidas desajustadas pelo excesso de peso e obesidade, é bem possível que o curso da ciência nutricional nos últimos sessenta anos tenha causado um dano sem paralelos na história da humanidade. Agora é aparente que desde 1961, toda a população americana foi, de fato, submetida a uma experiência em massa, cujos resultados foram uma falha clara. Todos os indicadores de uma boa saúde são piorados por uma dieta com pouca gordura. … Apesar de que mais de dois bilhões de dólares tenham sido gastos tentando provar que a redução de gorduras saturadas previne ataques cardíacos, a hipótese de que gorduras saturadas causam doenças cardíacas não se sustentou.

Ao final do livro, parece claro que quase tudo que o Tio Sam nos contou sobre os “perigos” da gordura saturada está completamente errado. Tendo dito isto, já passou da hora de demolirmos a pirâmide alimentar do USDA. Que a denúncia de Teicholz sirva como um alerta para quando cruzados políticos e seus aliados burocratas puderem forçar soluções de cima para baixo sobre todo mundo, sem jamais serem responsabilizados por seus erros, mesmo que absurdos.

Anúncios
Esse post foi publicado em Governo e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s